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"Acho que tenho TDAH": o perigo do autodiagnóstico de transtornos mentais nas redes sociais

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Nunca se falou tanto em saúde mental. E nunca foi tão fácil se autodiagnosticar com um transtorno sem ter ido a nenhum consultório. O que está por trás dessa epidemia de diagnósticos nas redes, e onde ela ajuda ou faz mal?

O algoritmo que te convenceu de que você tem um transtorno


Você assiste a um vídeo sobre TDAH no TikTok. O criador lista dez sintomas. Você se identifica com seis. Nos comentários, centenas de pessoas escrevem "esse sou eu". O algoritmo entende que você gostou do conteúdo e te entrega mais vídeos parecidos, sobre ansiedade, sobre bipolaridade, sobre autismo. Em menos de uma semana, você está convicto de que tem três transtornos que nunca havia considerado antes.


Isso não é ficção. É o cotidiano de milhões de pessoas, especialmente jovens entre 18 e 35 anos, o grupo que mais consome esse tipo de conteúdo. E o fenômeno tem nome: psicologização das redes sociais, ou, numa versão mais crítica, a espetacularização do sofrimento psíquico.


O que é a psicologização nas redes e por que ela explodiu


Psicologizar significa transformar experiências cotidianas em categorias clínicas. A procrastinação vira TDAH. A timidez vira fobia social. A tristeza prolongada vira depressão. A pessoa intensa vira borderline. Nenhum desses pode ser descartado de imediato, mas também nenhum deles pode ser diagnosticado por um vídeo de 60 segundos.


O boom desse tipo de conteúdo tem raízes legítimas: a pandemia escancarou que muita gente estava sofrendo em silêncio, e a desmistificação da saúde mental é, sem dúvida, algo positivo. O problema começa quando o conteúdo de conscientização se transforma em conteúdo de diagnóstico, e quando o algoritmo passa a ser o mediador entre o sofrimento de uma pessoa e a explicação para ele.


"As redes sociais democratizaram o acesso à informação sobre saúde mental, mas também democratizaram o acesso à desinformação. E nem sempre é fácil distinguir uma da outra."

Autodiagnose nas redes sociais: o que os transtornos mais citados têm em comum


TDAH, ansiedade, depressão, autismo e transtorno borderline de personalidade lideram os rankings de conteúdo sobre saúde mental nas principais redes. Não por acaso: todos eles compartilham sintomas que se sobrepõem a experiências humanas muito comuns, como dificuldade de concentração, oscilações de humor, sensibilidade emocional e dificuldade nas relações sociais.


O risco não está em falar sobre esses temas. Está em apresentar checklists simplificados como se fossem critérios diagnósticos, quando na prática um diagnóstico clínico leva em conta a intensidade dos sintomas, o tempo de duração, o impacto na vida funcional da pessoa e a exclusão de outras causas possíveis.


autodiagnóstico nas redes sociais

Quando a identificação ajuda e quando ela atrapalha


É preciso ser honesto: nem tudo é problema. A identificação com um conteúdo sobre saúde mental pode ser o primeiro passo para que uma pessoa reconheça que está sofrendo e procure ajuda. Para muita gente, especialmente quem nunca teve acesso a informação de qualidade, ver um vídeo sobre depressão foi o que a fez entender que o que sentia tinha nome, e que existia tratamento.


O problema aparece em pelo menos três situações. A primeira é quando a pessoa substitui a busca por ajuda profissional pela certeza do autodiagnóstico. A segunda é quando sintomas de algo mais grave, como um episódio maníaco ou um quadro psicótico, são enquadrados em categorias mais "aceitáveis" nas redes, atrasando um tratamento urgente. A terceira é quando o diagnóstico se torna identidade antes de ser investigado, organizando toda a autoimagem da pessoa em torno de um rótulo que pode nem ser preciso.


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O que fazer com tudo isso


A resposta não é parar de consumir conteúdo sobre saúde mental. É consumir com mais critério. Dar preferência a profissionais de saúde mental com formação verificável. Desconfiar de checklists que parecem se encaixar em qualquer pessoa. Usar a identificação como ponto de partida para uma conversa com um profissional, não como ponto de chegada.


E, talvez o mais importante: entender que nem todo sofrimento precisa de um diagnóstico para ser válido. Você pode estar passando por um momento difícil, estar exausto, sobrecarregado, triste ou perdido, sem que isso precise caber em uma categoria clínica. O sofrimento humano é real antes mesmo de ter nome.


autodiagnóstico nas redes sociais

Fontes: American Psychiatric Association, DSM-5; estudos sobre conteúdo de saúde mental em redes sociais (JMIR Mental Health, 2021 e 2023); Conselho Federal de Psicologia.


Ivana Siqueira

Psicóloga Clínica

CRP 05/40028

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