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Doomscrolling: por que não conseguimos parar de rolar o feed mesmo quando piora nosso humor

Você pega o celular para ver uma coisa rápida e quarenta minutos depois está lendo sobre desastres naturais, guerras e escândalos políticos sentindo uma angústia difusa que não sabe nomear. Isso tem nome, tem explicação e tem saída.

Doomscrolling

Às duas da manhã, rolando o feed de notícias ruins


A cena é familiar demais. Você deita para dormir, pega o celular "só para ver as horas" e começa a rolar o feed. Uma notícia ruim leva a outra. Um vídeo perturbador aparece. Um post sobre alguma catástrofe. Você sabe que deveria parar. Seu humor já piorou. Seus olhos estão pesados. E ainda assim o dedo continua rolando.


Esse comportamento ganhou um nome durante a pandemia: doomscrolling, uma junção das palavras doom (destruição, fatalidade) e scrolling (rolar a tela). Mas o fenômeno é mais antigo do que o termo, e tem raízes profundas na forma como o cérebro humano foi programado para funcionar.


"O doomscrolling é o resultado previsível de um cérebro evolutivo encontrando uma tecnologia projetada especificamente para explorá-lo."

A culpa não é sua. É da evolução (e um pouco dos algoritmos)


Durante milhares de anos, prestar atenção em ameaças era uma questão de sobrevivência. O cérebro humano desenvolveu um viés de negatividade: ele processa informações negativas com mais intensidade, velocidade e memória do que informações positivas. Uma notícia ruim captura nossa atenção de forma muito mais eficiente do que uma boa.


Esse mecanismo fazia sentido na savana. O problema é que ele encontrou um ambiente para o qual não foi projetado: feeds infinitos, algoritmos que aprenderam que conteúdo que gera ansiedade retém mais atenção, e notificações projetadas para criar urgência artificial a qualquer hora do dia ou da noite.

As plataformas digitais não são neutras nessa equação. Elas foram construídas por equipes de engenheiros e psicólogos comportamentais para maximizar o tempo que você passa dentro delas. E o conteúdo negativo, descobriram eles, é um dos mais eficientes para manter você rolando.


O que acontece no cérebro durante o doomscrolling


Doomscrolling


Por que paramos de rolar sentindo pior do que começamos


O doomscrolling cria um paradoxo: começamos porque estamos ansiosos e queremos entender o mundo ao redor, e terminamos mais ansiosos do que antes. Isso acontece porque a exposição contínua a conteúdo negativo sem resolução mantém o sistema nervoso em estado de alerta prolongado sem oferecer nenhuma forma de descarga ou ação.


Em termos psicológicos, é como passar horas lendo sobre incêndios sem nunca poder apagar nenhum. A sensação resultante tem um nome: angústia existencial difusa, uma mistura de impotência, hipervigilância e tristeza sem objeto claro. Muitas pessoas que relatam acordar já ansiosas, sem motivo aparente, estão, na verdade, carregando o resíduo emocional da última sessão de doomscrolling da noite anterior.


Sinais de que o doomscrolling está afetando sua saúde mental


  • Você pega o celular como primeiro gesto ao acordar, antes mesmo de se levantar

  • Você sente ansiedade ou culpa quando fica muito tempo sem checar as notícias

  • Seu humor piora consistentemente depois de usar redes sociais ou ler notícias

  • Você tem dificuldade de dormir ou acorda no meio da noite pensando em algo que leu

  • Você passa mais tempo consumindo conteúdo negativo do que positivo, mas não consegue parar

  • A sensação de que o mundo está piorando é constante, mesmo quando sua vida pessoal está bem


O que a pesquisa diz sobre os efeitos a longo prazo


Estudos publicados no jornal Health Communication mostraram que pessoas com padrões elevados de doomscrolling relatam níveis significativamente mais altos de estresse, ansiedade e sintomas depressivos. Uma pesquisa de 2022 da Universidade de Essex identificou que o consumo compulsivo de notícias negativas estava associado a maior sofrimento psicológico e menor sensação de bem-estar, independentemente do conteúdo específico consumido.


O problema não é estar informado. É a forma compulsiva, passiva e sem limite com que o consumo acontece. Há uma diferença enorme entre escolher ler sobre um assunto e ser arrastado por um algoritmo por quarenta minutos sem ter decidido isso conscientemente.


Estratégias que realmente funcionam para sair do ciclo


A força de vontade isolada raramente é suficiente porque ela compete diretamente com mecanismos neurológicos muito mais antigos e poderosos. O que funciona é redesenhar o ambiente para tornar o comportamento mais difícil e criar substitutos conscientes.


Algumas estratégias com respaldo em pesquisa comportamental: definir horários específicos para consumo de notícias e não checar fora deles; retirar aplicativos de notícias e redes sociais da tela inicial do celular; deixar o celular fora do quarto durante a noite; substituir o gesto de pegar o celular por outro comportamento físico quando a ansiedade aparecer; e praticar o que pesquisadores chamam de dieta de mídia, uma curadoria intencional do que você consome e em que quantidade.



Fontes: Baddeley, M. Behavioural Economics (2017); Soroka, S. Negativity in Democratic Politics (2014); Buchanan, K. et al. Weaponized vs. Wholesome News (Health Communication, 2022); University of Essex, compulsive news consumption study (2022); American Psychological Association, recursos sobre ansiedade e mídia.



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