Doomscrolling: por que não conseguimos parar de rolar o feed mesmo quando piora nosso humor
- Ivana Siqueira

- 25 de jun.
- 3 min de leitura
Você pega o celular para ver uma coisa rápida e quarenta minutos depois está lendo sobre desastres naturais, guerras e escândalos políticos sentindo uma angústia difusa que não sabe nomear. Isso tem nome, tem explicação e tem saída.

Às duas da manhã, rolando o feed de notícias ruins
A cena é familiar demais. Você deita para dormir, pega o celular "só para ver as horas" e começa a rolar o feed. Uma notícia ruim leva a outra. Um vídeo perturbador aparece. Um post sobre alguma catástrofe. Você sabe que deveria parar. Seu humor já piorou. Seus olhos estão pesados. E ainda assim o dedo continua rolando.
Esse comportamento ganhou um nome durante a pandemia: doomscrolling, uma junção das palavras doom (destruição, fatalidade) e scrolling (rolar a tela). Mas o fenômeno é mais antigo do que o termo, e tem raízes profundas na forma como o cérebro humano foi programado para funcionar.
"O doomscrolling é o resultado previsível de um cérebro evolutivo encontrando uma tecnologia projetada especificamente para explorá-lo."
A culpa não é sua. É da evolução (e um pouco dos algoritmos)
Durante milhares de anos, prestar atenção em ameaças era uma questão de sobrevivência. O cérebro humano desenvolveu um viés de negatividade: ele processa informações negativas com mais intensidade, velocidade e memória do que informações positivas. Uma notícia ruim captura nossa atenção de forma muito mais eficiente do que uma boa.
Esse mecanismo fazia sentido na savana. O problema é que ele encontrou um ambiente para o qual não foi projetado: feeds infinitos, algoritmos que aprenderam que conteúdo que gera ansiedade retém mais atenção, e notificações projetadas para criar urgência artificial a qualquer hora do dia ou da noite.
As plataformas digitais não são neutras nessa equação. Elas foram construídas por equipes de engenheiros e psicólogos comportamentais para maximizar o tempo que você passa dentro delas. E o conteúdo negativo, descobriram eles, é um dos mais eficientes para manter você rolando.
O que acontece no cérebro durante o doomscrolling

Por que paramos de rolar sentindo pior do que começamos
O doomscrolling cria um paradoxo: começamos porque estamos ansiosos e queremos entender o mundo ao redor, e terminamos mais ansiosos do que antes. Isso acontece porque a exposição contínua a conteúdo negativo sem resolução mantém o sistema nervoso em estado de alerta prolongado sem oferecer nenhuma forma de descarga ou ação.
Em termos psicológicos, é como passar horas lendo sobre incêndios sem nunca poder apagar nenhum. A sensação resultante tem um nome: angústia existencial difusa, uma mistura de impotência, hipervigilância e tristeza sem objeto claro. Muitas pessoas que relatam acordar já ansiosas, sem motivo aparente, estão, na verdade, carregando o resíduo emocional da última sessão de doomscrolling da noite anterior.
Sinais de que o doomscrolling está afetando sua saúde mental
Você pega o celular como primeiro gesto ao acordar, antes mesmo de se levantar
Você sente ansiedade ou culpa quando fica muito tempo sem checar as notícias
Seu humor piora consistentemente depois de usar redes sociais ou ler notícias
Você tem dificuldade de dormir ou acorda no meio da noite pensando em algo que leu
Você passa mais tempo consumindo conteúdo negativo do que positivo, mas não consegue parar
A sensação de que o mundo está piorando é constante, mesmo quando sua vida pessoal está bem
O que a pesquisa diz sobre os efeitos a longo prazo
Estudos publicados no jornal Health Communication mostraram que pessoas com padrões elevados de doomscrolling relatam níveis significativamente mais altos de estresse, ansiedade e sintomas depressivos. Uma pesquisa de 2022 da Universidade de Essex identificou que o consumo compulsivo de notícias negativas estava associado a maior sofrimento psicológico e menor sensação de bem-estar, independentemente do conteúdo específico consumido.
O problema não é estar informado. É a forma compulsiva, passiva e sem limite com que o consumo acontece. Há uma diferença enorme entre escolher ler sobre um assunto e ser arrastado por um algoritmo por quarenta minutos sem ter decidido isso conscientemente.
Estratégias que realmente funcionam para sair do ciclo
A força de vontade isolada raramente é suficiente porque ela compete diretamente com mecanismos neurológicos muito mais antigos e poderosos. O que funciona é redesenhar o ambiente para tornar o comportamento mais difícil e criar substitutos conscientes.
Algumas estratégias com respaldo em pesquisa comportamental: definir horários específicos para consumo de notícias e não checar fora deles; retirar aplicativos de notícias e redes sociais da tela inicial do celular; deixar o celular fora do quarto durante a noite; substituir o gesto de pegar o celular por outro comportamento físico quando a ansiedade aparecer; e praticar o que pesquisadores chamam de dieta de mídia, uma curadoria intencional do que você consome e em que quantidade.
Fontes: Baddeley, M. Behavioural Economics (2017); Soroka, S. Negativity in Democratic Politics (2014); Buchanan, K. et al. Weaponized vs. Wholesome News (Health Communication, 2022); University of Essex, compulsive news consumption study (2022); American Psychological Association, recursos sobre ansiedade e mídia.


Comentários