Fé e silêncio: por que mulheres evangélicas são as que mais sofrem violência doméstica?
- Ivana Siqueira

- há 12 horas
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Um dado alarmante vem sendo ignorado: entre todos os grupos religiosos no Brasil, são as mulheres evangélicas que apresentam os maiores índices de violência doméstica. Entender por que isso acontece é urgente e vai além da estatística.

Os números acima são do estudo "Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil", do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha, publicado em 2025. Eles revelam uma realidade que precisa ser falada em voz alta, inclusive dentro das igrejas.
O que a religião tem a ver com isso?
Antes de qualquer coisa, é importante deixar claro: a fé em si não é o problema. Nenhuma crença religiosa prega, em sua essência, que mulheres devem ser agredidas. O problema está em como certas interpretações e práticas religiosas podem, sem intenção explícita, criar um ambiente em que a violência se perpetua.
A dinâmica que os pesquisadores identificam tem um nome: sacralidade do matrimônio. Em muitas comunidades evangélicas, o casamento é tratado como uma aliança divina, intocável, que deve ser preservada a qualquer custo. Quando uma mulher vai pedir ajuda ao pastor ou líder religioso, ela frequentemente recebe conselhos como rezar mais, ser mais submissa, ter paciência, como se a solução para a violência fosse espiritual, e não prática.

Controle coercitivo: o tipo de violência que mulheres evangélicas não consegue nomear
Quase metade das mulheres evangélicas entrevistadas na pesquisa relatou viver ou ter vivido sob controle coercitivo. Mas o que isso significa na prática?
Controle coercitivo é um padrão de comportamento que não deixa marca visível, mas que destrói a autonomia da pessoa de forma sistemática. Ele inclui: controlar com quem a mulher fala, o que ela veste, aonde vai, como gasta o dinheiro; monitorar seu celular e suas amizades; usar o ciúme como prova de amor; isolá-la da família e de redes de apoio.
Dentro de certos contextos religiosos, esse controle pode facilmente ser confundido, ou até justificado, como "cuidado do marido", "proteção da família" ou "cumprimento dos papéis bíblicos". A mulher, muitas vezes, não identifica o que vive como violência. E essa dificuldade de nomear o que acontece é exatamente o que prolonga o ciclo.

Por que ela não denuncia?
Esse é o ponto que mais pesa: mesmo sofrendo, a maioria das mulheres evangélicas não busca ajuda nos canais oficiais. Apenas 25,7% procuram delegacias ou serviços especializados. A maioria vai à igreja e lá, muitas vezes, encontra mais pressão do que suporte.
Denunciar, nesse contexto, não é só enfrentar o agressor. É enfrentar a própria comunidade, o olhar dos irmãos de fé, a interpretação de que ela está "destruindo o lar". É carregar o peso da culpa coletiva por uma escolha que, na verdade, seria de autopreservação.
Do ponto de vista psicológico, esse cenário cria o que chamamos de aprisionamento relacional e identitário: a mulher não se vê apenas em um relacionamento abusivo, mas em uma identidade que está completamente fundida à figura de esposa e mãe cristã. Sair parece ser o mesmo que deixar de ser quem ela é.
O que pode mudar?
Os próprios pesquisadores apontam que as igrejas evangélicas têm um potencial enorme para fazer parte da solução, justamente porque o vínculo entre pastor e fiel é muito próximo. Essa proximidade, que hoje pode silenciar, poderia ser usada para acolher.
Mas para que isso aconteça, é necessário que lideranças religiosas recebam formação sobre violência doméstica, que os sermões deixem de romantizar o sofrimento feminino, e que as comunidades criem espaços reais de escuta, sem julgamento, sem pressão para "salvar o casamento a qualquer custo".
Do lado de fora das igrejas, o papel dos profissionais de saúde mental é igualmente importante: acolher essas mulheres sem invalidar a fé delas, entender o peso que o ambiente religioso tem em suas decisões, e ajudá-las a construir uma narrativa onde cuidar de si mesmas não é o oposto de ser uma boa cristã.

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Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Instituto Datafolha, "Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil" (2025); Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, DataSenado (2025); pepsic.bvsalud.org, "Análise das vivências de violência doméstica em mulheres evangélicas pentecostais e neopentecostais".
Ivana Siqueira
Psicóloga Clinica
CRP 05/40028



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