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Já ouviu falar em violência financeira no casamento? Conheça o abuso que não deixa marca visível

Ele paga tudo, mas você precisa pedir dinheiro para comprar absorvente. Ela trabalha, mas nunca sabe quanto tem na conta. O dinheiro como instrumento de poder é uma forma de violência que a Lei Maria da Penha reconhece, mas que a maioria das pessoas ainda não consegue nomear.

Dinheiro

Uma cena comum que ninguém chama de abuso


Ela precisa pedir ao marido dinheiro para ir ao mercado. Ele pergunta o que vai comprar, quanto vai gastar, por que precisa daquilo. Ela presta contas, justifica, aguarda aprovação. Isso acontece toda semana, há anos. Quando alguém de fora pergunta como é o relacionamento, ela diz que ele é muito responsável com as finanças.


Esse é um dos retratos mais comuns da violência financeira no casamento. E um dos mais invisíveis, porque o controle do dinheiro é frequentemente disfarçado de cuidado, de responsabilidade ou de uma divisão natural de papéis dentro do lar.


"A violência financeira não deixa hematomas. Ela deixa dependência, paralisia e a sensação de que você não consegue sobreviver sozinha. E às vezes essa sensação é tão antiga que a vítima acredita que é verdade."


O que diz a lei


No Brasil, a violência patrimonial e financeira é reconhecida pela Lei Maria da Penha desde 2006. O artigo 7º define como violência patrimonial qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, documentos pessoais, bens, valores e recursos econômicos da mulher, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades.


Apesar do respaldo legal, a violência financeira é uma das formas menos denunciadas. Muitas vítimas não sabem que o que vivem tem nome jurídico. Outras sabem, mas dependem financeiramente do agressor, o que torna a denúncia ainda mais difícil.


Como que a violência financeira se manifesta no dia a dia


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Por que o dinheiro é uma ferramenta de poder tão eficiente


O controle financeiro é, entre todas as formas de violência doméstica, uma das mais eficazes para manter a vítima presa. Isso porque ele atua diretamente sobre a autonomia prática: sem dinheiro, sem documento, sem histórico financeiro próprio, a saída do relacionamento parece impossível, não apenas emocionalmente, mas logisticamente.


A pergunta "mas por que ela não vai embora?" ignora completamente essa realidade. Uma mulher que nunca teve acesso à própria renda, que não sabe como pagar uma conta, que não tem nome no contrato do apartamento e que acredita, após anos de condicionamento, que não é capaz de se sustentar, não está "escolhendo" ficar. Ela está presa dentro de uma estrutura construída para mantê-la assim.


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O impacto psicológico de anos sob controle financeiro


A violência financeira prolongada produz efeitos psicológicos profundos. A vítima frequentemente desenvolve o que os pesquisadores chamam de desamparo aprendido: após anos tentando agir e sendo bloqueada, ela para de tentar. Não porque seja passiva por natureza, mas porque aprendeu, através de repetição sistemática, que suas ações não têm resultado.


Além disso, a dependência financeira reforça a dependência emocional. Quando alguém controla o que você come, onde você vai e o que você veste, é muito difícil manter um senso de identidade separado dessa pessoa. A autoestima vai sendo corroída junto com a autonomia.


Como sair e onde buscar ajuda


A saída da violência financeira exige planejamento, porque a dependência foi construída ao longo do tempo e não se desfaz de um dia para o outro. Alguns passos práticos que especialistas recomendam: guardar documentos pessoais em local seguro, abrir uma conta bancária individual, guardar pequenas quantias quando possível, mapear os bens do casal e buscar orientação jurídica antes de tomar qualquer decisão.


Do ponto de vista psicológico, o trabalho terapêutico pode ajudar a reconstruir a crença na própria capacidade, a identificar os padrões de controle que foram normalizados e a desenvolver um plano de saída que leve em conta não só a segurança física mas também a segurança emocional.


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Fontes: Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340/2006; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Visível e Invisível (2025); Seligman, M.E.P. Helplessness (1975); Instituto Maria da Penha, recursos sobre violência patrimonial.


Ivana Siqueira

Psicóloga Clínica

CRP 05/40028

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