Ninguém acredita em você: o tabu da violência praticada por mães
- Ivana Siqueira

- há 4 dias
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A imagem da mãe amorosa está tão enraizada na cultura que, quando ela é a fonte do abuso, a vítima enfrenta dois sofrimentos: o da violência em si, e o de não ser acreditada quando tenta falar sobre ela.
A história que não tem lugar para ser contada: a violência praticada por mães
Quando alguém conta que foi abusado pelo pai, o relato encontra um caminho. Existe um roteiro social para isso: indignação, apoio, validação. Quando alguém conta que foi abusado pela mãe, o caminho some. O que aparece no lugar é a dúvida: tem certeza? Ela não queria o seu bem? Você não está exagerando? Mãe é mãe.
Esse silêncio não é acidental. Ele é o resultado de um conjunto de crenças culturais sobre a maternidade que tornam a violência materna praticamente invisível, mesmo quando ela está acontecendo na frente de todo mundo.
"A idealização da maternidade não protege as crianças. Ela protege o mito. E enquanto o mito é preservado, as vítimas ficam sozinhas com uma história que ninguém quer ouvir."
O mito do instinto materno e o que ele esconde
A ideia de que toda mulher tem um instinto materno natural, que garante amor incondicional e proteção automática aos filhos, é um construto cultural relativamente recente. A historiadora Elisabeth Badinter mostrou, em seu trabalho sobre a história da maternidade, que o amor materno nem sempre foi tratado como instinto: durante séculos, mães da aristocracia europeia entregavam filhos a amas de leite sem qualquer sentimento de abandono.
O problema não é reconhecer que o amor materno existe e pode ser profundo. O problema é transformá-lo em obrigação biológica e universal, porque essa obrigação cria dois efeitos colaterais graves: culpabiliza mães que não conseguem amar da forma esperada, e torna impossível reconhecer que algumas mães causam dano intencional ou sistemático aos próprios filhos.
Como a violência materna se manifesta
Ela raramente se parece com o que imaginamos quando pensamos em abuso. A violência materna com frequência é psicológica, sutil e estruturada de forma que a própria vítima tem dificuldade de identificá-la como abuso.

O que acontece com quem cresce nesse ambiente
As consequências psicológicas do abuso materno são semelhantes às de outras formas de abuso na infância, mas carregam uma camada adicional de complexidade: a figura que deveria ser a fonte primária de segurança foi também a fonte do perigo.
Isso cria o que a teoria do apego chama de dilema do apego desorganizado: a criança está biologicamente programada para buscar conforto na figura de apego quando está com medo, mas quando essa figura é também quem causa o medo, o sistema nervoso entra em colapso. Não há lugar seguro para onde ir.
Na vida adulta, esse padrão pode aparecer como dificuldade de confiar em vínculos próximos, relacionamentos marcados por medo de abandono ou de engolfamento, dificuldade de identificar os próprios limites, e uma culpa crônica difusa que não tem objeto claro.

Por que é tão difícil nomear e o que ajuda
Além do tabu cultural, existe uma razão neurológica para a dificuldade de nomear a violência praticada por mães: o cérebro da criança depende da figura materna para se organizar. Reconhecer que essa figura causou dano significa reorganizar toda a base sobre a qual a identidade foi construída. É um trabalho imenso, e não é linear.
A psicoterapia, especialmente abordagens que trabalham com trauma de desenvolvimento e teoria do apego, pode oferecer o espaço para que essa reorganização aconteça de forma segura. Não para destruir a relação com a mãe necessariamente, mas para que a pessoa possa finalmente nomear o que viveu, validar seu próprio sofrimento e construir vínculos mais seguros a partir daí.
O primeiro passo, muitas vezes, é o mais difícil: acreditar em si mesmo antes que alguém de fora o faça.

Fontes: Badinter, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno (1985); Main, M. & Hesse, E. Parents' unresolved traumatic experiences (1990); Forward, S. Mothers Who Can't Love (2013); American Psychological Association, recursos sobre trauma de desenvolvimento.
Ivana Siqueira
Psicóloga Clínica
CRP 05/40028



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