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"Terapia é para quem é fraco": o que está por trás da resistência a buscar ajuda psicológica

O Brasil tem um dos maiores números de psicólogos per capita do mundo. E ainda assim, a maioria das pessoas que precisam de ajuda nunca chega a um consultório. Por quê?

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Uma frase que revela muito


Quase todo psicólogo já ouviu alguma versão dessa frase de um paciente na primeira sessão: "Demorei muito para vir porque achei que conseguiria resolver sozinho." Ou: "Minha família acha que terapia é frescura." Ou ainda: "Eu vim porque não aguentei mais, não porque queria."


A resistência a buscar ajuda psicológica é um fenômeno real, documentado e multifatorial. Ela não é simplesmente teimosia ou falta de informação. É o resultado de camadas de cultura, classe, gênero e história que se somam para tornar o pedido de ajuda algo que parece, para muita gente, mais difícil do que continuar sofrendo.


"Pedir ajuda num contexto em que a autossuficiência é um valor central não é apenas inconveniente. É uma ameaça à identidade. E o cérebro faz de tudo para evitar ameaças à identidade."

Os diferentes rostos da resistência


A resistência à terapia não tem uma só cara. Ela se manifesta de formas diferentes dependendo de quem é a pessoa, de onde ela vem e do que aprendeu sobre sofrimento e cuidado.



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O paradoxo da vergonha


Há algo curioso no centro dessa resistência: a vergonha de precisar de ajuda é, em si mesma, um dos principais sintomas de quem mais precisa dela. Pessoas com baixa autoestima, histórico de invalidação emocional ou padrões de autopunição tendem a sentir que não merecem ser cuidadas, que seus problemas não são graves o suficiente, que estão incomodando.


Esse paradoxo cria um ciclo difícil de quebrar: quanto mais a pessoa precisa de suporte, mais ela se convence de que não deve buscá-lo. E quanto mais tempo passa sem suporte, mais o sofrimento se consolida e mais difícil fica de dar o primeiro passo.


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O que a pesquisa diz sobre quem busca e quem não busca ajuda psicológica


Dados do Conselho Federal de Psicologia mostram que a maioria das pessoas que procuram psicoterapia no Brasil são mulheres, brancas, com ensino superior e renda média ou alta. Isso não significa que homens, negros e pessoas de baixa renda sofrem menos. Significa que as barreiras para acessar cuidado são distribuídas de forma profundamente desigual.


Pesquisas internacionais mostram que o intervalo médio entre o início dos sintomas de um transtorno mental e a busca por tratamento é de 11 anos. Onze anos de sofrimento antes do primeiro pedido de ajuda. Esse número diz muito sobre o peso do estigma, da falta de acesso e da cultura da autossuficiência.


Terapia não é para quem está quebrado. É para quem quer crescer.


Uma das mudanças de perspectiva mais úteis sobre a psicoterapia é deixar de vê-la como recurso de emergência para momentos de crise e começar a vê-la como um espaço de desenvolvimento contínuo. Pessoas que não estão em crise também se beneficiam da terapia: para entender padrões de comportamento, melhorar relacionamentos, tomar decisões com mais clareza, lidar com transições de vida.


Buscar ajuda psicológica não significa que algo está errado com você. Significa que você decidiu prestar atenção em si mesmo com a seriedade que qualquer ser humano merece.


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Fontes: Conselho Federal de Psicologia, relatório sobre acesso à saúde mental no Brasil; Wang et al., Delays in initial treatment contact after first onset of mental disorders (2004); Corrigan, P.W. The impact of stigma on severe mental illness (1998); American Psychological Association, reducing barriers to mental health care.



Ivana Siqueira

Psicóloga Clínica

CRP 05/400288

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